Efeito borboleta: cooperação internacional e interação com a sociedade civil local: outro percurso é possível?
- Luciana Pinto

- 14 de mai. de 2025
- 2 min de leitura

O mundo tem andado tão de cabeça para baixo nos últimos anos, sobretudo no pós-pandemia, que nunca foi tão fácil acessar o imaginário do chamado “efeito borboleta[1]”, inclusive no campo da atuação da sociedade civil. Vejamos: o resultado da eleição americana em 2025, entre suas muitas e graves consequências, levou ao fechamento da USAID, uma das principais agências de ajuda humanitária do mundo. Isso foi suficiente para que milhares de crianças de países africanos tivessem comprometido seu direito à saúde, por falta de vacinas e medicamentos. Ou aqui mesmo na América Latina, pelo mesmo motivo, reduziram-se de forma drástica os recursos destinados ao desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Mas as mudanças que tanto preocupam não param no contexto norte-americano. A União Europeia, neste ano, firmou um acordo para investir cerca de cinco trilhões de reais em armamentos e defesa. Não é preciso fazer muitos cálculos para concluir que isso reduz os insumos de apoio à cooperação internacional, e que países do chamado Sul Global vêm sendo gradativamente afetados por essa medida. Sem falar na recente eleição alemã, que levou os conservadores ao poder e fortaleceu segmentos ligados à extrema direita, incrementando as complexidades no campo da solidariedade internacional e impactando os processos de acesso a recursos por organizações locais — sejam elas instituições e movimentos históricos ou coletividades de atuação mais localizada.
Muitas camadas de reinvenção são e serão necessárias para que a sociedade civil consiga aplacar os danos de uma retração orçamentária que impõe graves limites e exige força criativa na busca por sustentabilidade financeira e de resultados. Uma coisa é certa: não é mais possível refletir o local sem pensar no global — e vice-versa.
Se, para entidades da sociedade civil com trajetória consolidada e credibilidade junto a doadores, as dificuldades do contexto assustam, como fica a situação de grupos, associações e coletivos locais, que não detêm as mesmas expertises?
A intersecção entre instituições nacionais, organizações internacionais e coletivos populares se consolida, a cada dia, como uma estratégia fundamental para uma sociedade civil forte, com espectro mais amplo, diverso e participativo. Iniciativas como fundos de apoio, suporte a pequenos projetos, estímulo e orientação à mobilização de recursos já existem e, há tempos, contribuem com o desenvolvimento das capacidades de gestão, incidência política e articulação em rede — mas novos cenários também se desenham para essas relações.
Por parte da cooperação internacional e da filantropia, a novidade é o aumento do interesse no apoio direto a coletivos locais. Tal movimento convida, cada vez mais, à revisão dos papéis das OSCs em relação a esses sujeitos, ampliando vínculos que vão além dos públicos de suas intervenções. Esse processo pode agregar valor à atualização temática cotidiana, por meio do contato com experiências locais que qualifiquem e fundamentem suas práticas de incidência política e metodologias, permitindo revisitar e atualizar suas narrativas.
Para os coletivos locais, por outro lado, o fortalecimento desses vínculos amplia suas experiências de gestão, pode aumentar sua visibilidade e credibilidade nos territórios, além de fermentar suas redes de relações políticas e financeiras com as OSCs.




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