top of page
Buscar

Quanto custa o trabalho de consultoria? A precarização do trabalho e as duas faces da mesma moeda

  • Foto do escritor: Luciana Pinto
    Luciana Pinto
  • 11 de out. de 2024
  • 3 min de leitura

 


Visivelmente, existe um imaginário de que os serviços de consultoria, por vezes, têm custos exacerbados, sobretudo quando comparados aos proventos de profissionais que atuam dentro das instituições.

Outro dia fui casualmente apresentada a alguém que, ao saber com o que eu trabalhava, me perguntou:


— “Ah, então você sabe ganhar dinheiro, né?”

 

Passei dias pensativa sobre essa abordagem e associei-a a tantas outras que já havia experimentado, constatando, a partir daí, que não se tratava de uma inquietação isolada. De tanto refletir, não é que acabei escrevendo este texto!

Longe de querer romantizar o tema ou levar essa reflexão ao extremo, sem querer também validar ou não a premissa da pergunta lançada, acredito que algumas pontuações são importantes para ajudar na compreensão das semelhanças e diferenças entre esse ou outros caminhos profissionais, sobretudo no universo das organizações da sociedade civil e movimentos sociais.


A primeira coisa a dizer, talvez seja o óbvio, mas nem por isso menos importante: não há nada de errado em se saber ou se desejar ganhar dinheiro, desde que isso aconteça de forma honesta e coerente com nossos valores e princípios, e com a realidade sob a qual nos propomos a intervir.


Outra evidência fácil de identificar é que a atuação de consultoras e consultores não nos distancia do pertencimento à classe trabalhadora. Acho mesmo pouco provável que o imaginário romantizado do empreendedorismo se impregne em profissionais com uma posição crítica mais apurada. Assim, a ocupação dos espaços de consultoria não está em disputa com quem estabelece vínculos através da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou pelas legislações que regulamentam o trabalho de funcionários públicos em diferentes instâncias.


A questão é que esta conversa acaba sendo mais sobre certos aspectos da precarização da força de trabalho, à qual a classe trabalhadora está sujeita, e da qual nosso campo de atuação não está isento, do que sobre a disputa de narrativas entre honorários de consultoria e salários de funcionários das instituições, raiz da inquietação da colega no início desse texto.  


Se, no campo dos profissionais com contratos de trabalho protegidos, há uma sobrecarga de trabalho que frequentemente extrapola a carga horária, acentuando uma percepção de descompasso entre demandas solicitadas e condições oferecidas, mesmo com direitos trabalhistas assegurados; no campo das consultorias, uma remuneração supostamente mais alta não deixa nítido que ali se incluem gastos fundamentais à realização do trabalho, como: energia elétrica, aluguel de espaço, combustível, transporte, comunicação, aquisição e manutenção de equipamentos, impostos, etc. Por outro lado, o "escritório em casa" e a possibilidade de estar em várias frentes a um mesmo tempo, ao mesmo tempo em que confunde o público e o privado também permite outras formas de gestão do tempo. Um exercício árduo de gestão do cotidiano.  


Os prós e contras de cada uma das formas de vinculação ao mercado de trabalho poderiam se estender muito mais. No entanto, os exemplos citados nos parágrafos anteriores convidam à reflexão sobre o ponto de intersecção em que nos encontramos. O fiel da balança poderia ser apenas que profissionais e instituições entendessem a natureza da demanda e constituísse, a partir daí, o perfil e o tipo de vínculo adequado para cada contratação. Mas isso não é suficiente, nem resolve questões mais complexas. Se, de um lado, conhecer a demanda faz diferença para identificar necessidades de expertise, e de distanciamento e do tempo necessário para o trabalho — fatores que podem ser critério de contratação — por outro, tais decisões estão subordinadas aos limites orçamentários, à sobrecarga de trabalho, às condições burocráticas impostas por financiadores, à capacidade da instituição de mobilizar recursos, a expectativas por resultados, entre outros pontos.



Afinal de contas, não há um lado melhor ou pior. Perdemos todes com a precarização cada dia mais acentuada. Trabalhadoras e trabalhadores, seja no campo das consultorias ou em vínculos institucionais mais permanentes e protegidos, estão submetidos a dimensões do trabalho que, em alguns momentos, dificultam e, em outros, podem trazer mais conforto as suas jornadas. Entender essas particularidades pode contribuir para romper com visões dicotômicas, hierarquizadas ou conflitantes, na hora de estabelecer relações de contratação e manutenção de profissionais, seja no campo da sociabilidade ou no próprio ambiente profissional.

 

 
 
 

Comentários


bgg-09.png

Fale conosco! 

Obrigada! Logo te retornaremos.

LOGO-10.png
bottom of page