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Planejamento: o cuidar precisa fazer parte!

  • Foto do escritor: Luciana Pinto
    Luciana Pinto
  • 5 de dez. de 2024
  • 5 min de leitura

O fim do ano já empurrou o pé na porta, e junto com o combo de coisas que ele traz, vem o fechamento das atividades nas nossas organizações. Uma fase para olhar para dentro, revisitar ações, aprender com os desafios e dificuldades enfrentados ao longo do ano e gestar novas ideias. Um ciclo bem familiar no nosso calendário, um convite à reflexão que chega sintetizado no verso de Paulinho da Viola: “Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado(*).

Nos últimos meses, em meio aos diálogos sobre planejamentos operacionais ou estratégicos, uma pergunta tem se destacado: se o planejamento é essencial, e se conseguimos fazê-lo de forma adequada nas nossas instituições, por que estamos adoecendo tanto em decorrência de pressões e sobrecargas de trabalho?

Como de costume, o que pretendemos aqui é propor reflexões que inspirem mudanças e melhorias na realidade das organizações, sem nos arvorar a trazer respostas rígidas. E queremos fazer isso a partir de algumas pistas que podem ajudar na reflexão, e, quem sabe até minimizar as sobrecargas, insatisfações e adoecimentos, enquanto questões cada vez mais comumente manifestadas em síndromes como burnout, depressão e ansiedade, impactando nossa saúde mental e física.


O Círculo de Pressão e a Impossibilidade de "Salvar o Mundo"


Nosso trabalho está constantemente sujeito a fatores ligados à conjuntura, seja em dimensões local, estadual ou nacional. As diferentes instabilidades as quais tais cenários estão submetidas intensificam em nós a sensação de urgência e a necessidade de estar presente em muitos espaços. Às vezes, até mais que nossas condições individuais e institucionais permitem atender. Enfim, essa ânsia de “salvar o mundo”, pode ser um dos elementos dificultadores da nossa capacidade de filtrar e priorizar o que realmente é essencial e viável.


Impulsividade individual ou fragilidade institucional no estabelecimento de critérios para discernir aquilo que é urgente, e que surge no contexto para além do que foi planejado, a dificuldade de reconhecer o que já está sendo conduzido por outros sujeitos, e a fragilidade em decidir tomar parte sem protagonizar, podem ser vilões que nos levam à sobrecarga.


Picos de trabalho em que precisamos trabalhar durante o final de semana, levar algo para finalizar ou produzir em casa, tem cada vez mais se tornado a rotina e saído do lugar do esporádico. E é nessa naturalização que mora o perigo!

Um dos grandes desafios dos planejamentos é o de considerar não apenas os objetivos, metas, e prazos, mas também as condições reais para a execução das iniciativas propostas. Nesse sentido, equiparar o que foi pensado e assumido no planejamento com a capacidade institucional em termos de recursos humanos, materiais, financeiros, com a carga horária da equipe, a diversidade de tarefas assumidas, entre tantos outros pontos relevantes.


A Gestão do Tempo e os Espaços de Participação


Outro aspecto importante a ser considerado é a participação em espaços de articulação social, seja no campo dos fóruns, redes, consórcios, coletivos, seja quando se tratam de espaços institucionais de formulação de políticas públicas, como conselhos, conferências, etc, não basta marcar presença; é necessário alinhar a participação aos objetivos institucionais e ao perfil das e dos profissionais que assumem essas tarefas. Antes de se comprometer com demandas em fóruns, conselhos, redes, ou outras articulações, que destaquem à visibilidade, a expertise e a credibilidade institucional,  é fundamental considerar:


  • Recursos humanos, materiais e financeiros disponíveis;

  • O tempo necessário para preparar, participar, executar ações definidas, e acompanhar os desdobramentos;

  • A equação entre as demandas externas e as demandas internas assumidas pelas pessoas que ocupam esses espaços dentro da instituição;

Sem essa avaliação, as responsabilidades acabam se acumulando e transbordando para noites, fins de semana, comprometendo férias, reduzindo até mesmo licenças médicas ou de outras ordens. Que lembremos – direitos de trabalhadores, conquistados e mantidos à custa de muitas lutas históricas.


Entre o Individual e o institucional


Pouco se reflete também sobre o equilíbrio entre o individual e o coletivo no fazer institucional. Perguntas como: “até onde sou eu que não consigo delegar?” ou “quando é que a organização que exige mais do que suas equipes conseguem responder?” podem ajudar a identificar os limites e a repensar práticas.


Não é raro que assumamos tarefas que extrapolem nossas responsabilidades, por acreditarmos na importância delas, seja pela pertinência com o planejamento, seja pela dimensão de urgência, pela nossa dificuldade individual de colocar limites, ou por uma cultura institucional forjada na sobrecarga. Lembremo-nos, entretanto, que a cultura institucional, esse ente abstrato sobre a qual tantos debates se encerram, não é um fim em si mesmo, e pode ser modificada a partir de processos graduais, que tem como ponto de intersecção tanto a vontade política da gestão,  quanto as atitudes individuais do seu corpo de profissionais.  


Em que pese esse encontro de sujeitos e de vontades, entre o individual e o coletivo, no ambiente institucional, é preciso não perder de vista que as lideranças têm um papel fundamental nesse processo. Cabe às gestões avaliar se estão cuidando dos profissionais de forma coerente com os valores institucionais que defendem, e mesmo com as demandas assumidas. É preciso observar se é saudável o caminho adotado, para conduzir o estímulo e ao desenvolvimento. Isso inclui valorizar o acúmulo de conhecimentos e experiências sem sobrecarregar as pessoas, mantendo o trabalho alinhado aos objetivos institucionais, estabelecer prioridades não só na hora do planejamento, mas também na hora de tomar decisões sobre as demandas urgentes, impostas pela conjuntura, e no momento em que o processo de monitoramento sugere reorientar a rota.


Cuidado no Ambiente de Trabalho: Uma Necessidade Urgente


O cuidado no ambiente de trabalho já é tema de diversas iniciativas, tanto por sensibilização interna ou externas. No entanto, muitas vezes, essas ações chegam tarde, quando a motivação e o estímulo já foram corroídos. É preciso ir além da correção de rumos. Um ambiente de trabalho saudável precisa evitar a automatização no cumprimento de tarefas, mantendo acesa a chama dos sentidos que cada iniciativa gera, e promovendo a partilha de valores e princípios que dão sentido à atuação no campo social. A motivação, a criatividade e a saúde emocional são peças-chave para a sustentabilidade de qualquer organização.


Um Convite à Reflexão


Finalizar o ano com essas ponderações pode ser uma oportunidade de reavaliar práticas e ajustar rumos. Planejar deve ser uma ferramenta para organizar sonhos, estabelecer prioridades, desenhar metas e estratégias de acordo com as nossas potencias, pensar caminhos para enfrentar as dificuldades e fortalecer o impacto das ações.


Que os próximos planejamentos possam ser cultivados de forma realistas, com participações mais estratégicas e, acima de tudo, dotado de um cuidado maior com quem move nossas organizações. Afinal, cuidar de quem cuida, embora tenha se instituído quase como um jargão, precisa ser assimilado também como expressão de direitos, em um passo importante para transformar a realidade que nos cerca, afinando instrumentos, como diz a canção “de dentro pra fora, e de fora pra dentro[1]


(*) - Verso de "Dança da Solidão"

[1] Trecho de Serra do Luar – de Walter Franco.

 
 
 

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