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Luto e trabalho: qual a medida do impossível?

  • Foto do escritor: Luciana Pinto
    Luciana Pinto
  • 15 de set. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 16 de set. de 2024

 

Quando se perde alguém, nosso corpo reage de diferentes maneiras. Há quem tente seguir em frente rapidamente, há quem fique prostrada, há quem busque movimento físico, ou outros exercícios de superação. Há quem se recolhe e há quem se agrupe.


Esse texto poderia discorrer sobre as formas mais conhecidas, até às menos faladas, de atravessar esse momento duro, que, mesmo inevitável, está inscrito numa cultura que não nos prepara para naturalizar.


A ideia é refletir sobre como a equação entre luto e retorno ao cotidiano, mais especificamente às dinâmicas de trabalho podem ser vivenciadas com um mínimo de equilíbrio. Qual a medida do que soa impossível, pelo menos no início? A resposta? Não nos arriscamos trazê-la. Talvez o propósito aqui seja levantar mais perguntas, que ajudem a refletir essas vivências, suas dificuldades, elementos de conforto e desafios.


Os lutos são acumulativos. Cada nova perda remete às anteriores, mas é a perda atual, sempre a mais intensa, nessa confluência com experiencias do passado. A psicologia explica isso melhor do que este texto, mas até onde aprendemos, é assim que funciona.


Muitos fatores são variáveis : o tipo de vínculo com quem partiu, a afetividade e as intimidades construídas, a proximidade ou a distância no momento da despedida. Poderíamos destrinchar aqui muitos elementos, mas paramos por aqui, para que você agregue à reflexão suas próprias experiências ou impressões.


O fato é que vivemos numa sociedade que, ao mesmo tempo em que de certa forma, se nutre de dramas pessoais, nos cobra reações rápidas. O conhecido jargão: do luto à luta, precisa ser uma escolha, e um trânsito generoso e flexível para cada pessoa. Não dá pra exigir resiliência e pragmatismo, que não se encaixem em exercícios reais de superação. Reconhecer essas armadilhas pode ser importante para evitá-las, e ir tentando se respeitar nesse reaprender a vida, mesmo que la fora ela esteja alheia à chuva de dor e saudade que nos molha por dentro.


O luto é uma experiência fundada no final do ciclo de quem parte. E como tal, não pode reduzir esta pessoa ao vínculo conosco, ao papel que ela teve na nossa vida, porque ela vai ser sempre muito maior. Já do nosso lado, é uma experiência pode ter muita força, pode ser inesquecível, mas não nos define, e por isso mesmo se (e nos) transforma.


Passam-se os primeiros dias de ritualização, o tempo de sepultamento, cremação, das praticas de fé e espiritualidade, independente de crenças. Avança o tempo de rever objetos de quem se foi, o que sempre reaviva tristezas e lembranças, e a vida está aí, regada por um capitalismo frenético que brada a plenos pulmões: levanta-te e anda, porque o tempo não para.


Tem quem escuta músicas e se alimenta das memórias; há quem se distancie delas. Há quem viaje, quem escreva, há quem cante. Buscam-se suportes terapêuticos os mais diversos; procuram-se acolhidas afetuosas de amigos. A tal resiliência também é perseguida na fé e nas expressões de religiosidade. Aquela velha mesa de bar também pode trazer um respiro. E vale misturar várias dessas coisas, ou não fazer nada disso. Não está tudo no mesmo nível, mas não há uma receita do que fazer. O aprendizado é sentido e vivido, conscientemente ou não, sobretudo no corpo, nesse desafiador jogo de tentativa e erro.


Chega, porém, um momento em que, de fato é preciso reaprender o cotidiano. Ir pisando devagar no novo chão, e alguns cuidados podem ser tomados para permitir mais suavidade e autorrespeito. Sobre isso, a partilha de alguns pensamentos aqui, segue a máxima de não impor regras ou soluções, muito menos em um tema tão delicado. Mas evoca experiências que podem trazer outros vaga-lumes para iluminar reflexões importantes de olhar e sentir o tema.


É preciso observar a própria capacidade de concentração e aceitar que, no trabalho, talvez não se consiga produzir, no início, com as mesmas condições de quem não está a passar por isso. Então, não se cobre tanto e, se possível, negocie prazos de entrega. "Ah, mas no meu trabalho isso não é possível, ninguém nunca tentou, porque tudo é pra ontem!" Talvez seja preciso ser a primeira pessoa a fazê-lo.  Mesmo que o os afazeres do dia a dia possam ser um ponto de apoio importante, que retire um pouco a centralidade dor, é relevante atentar em não cair no extremo da exaustão e garantir os respiros. O mundo respeita a quem dá limites, e só dá limites quem os conhece em si própria.


Seja na vida pessoal, seja no trabalho, experimente escutas afetuosas, identifique de quem gostaria de estar perto. Perceba quem tem disposição para ouvir com acolhimento. Talvez seja prudente evitar as partilhas profundas com quem “ouve” ansioso para falar de si, num tom de comparação, instaurando uma certa olimpíada de sofrimentos, onde "ganha" quem tem mais dor. Não é que estas pessoas gostem menos de você, mas talvez não estejam disponíveis pra essa acolhida, e perceber isso pode lhe poupar de sensibilidades que não ajudam. No fim, a reflexão é sempre sobre não se violentar emocionalmente, e não se eNcolher para caber, mas caber dentro do que se eScolhe.

 
 
 

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