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"Dá para a Inteligência Artificial Lavar a Louça? Intersecções Entre Automação e Criatividade"

  • Foto do escritor: Luciana Pinto
    Luciana Pinto
  • 24 de set. de 2024
  • 4 min de leitura


Para começo de conversa precisamos falar sobre o ponto de partida dessa reflexão e o que não esperar dele. Eu não tenho nenhuma formação em tecnologia, mas sempre fui uma usuária bem buliçosa, sempre no fluxo da minha curiosidade com as ferramentas digitais. Essa curiosidade vai além de descobrir facilidades, mas busca refletir, ainda que de modo empírico, os fenômenos e comportamentos gerados pelo avanço da tecnologia. E isso vale também para as multifaces da Inteligência Artificial, que embora tragam benefícios operacionais, não podem nos furtar de manter um olhar crítico sobre como afetam as dinâmicas humanas e sociais.


É fato que há algum tempo a IA permeia nossas vidas em tantos campos diferentes e de forma tão involuntária que, às vezes, a gente nem se dá conta. Mas ela está lá, na voz do GPS, ou naquela que responde perguntas básicas no Serviço de Atendimento ao Cliente, está nos chatbots de informação, e nem me atrevo a mencionar as possibilidades no campo do audiovisual e das artes. 


Ao olharmos para o nosso campo de trabalho, porém, é preciso reconhecer que embora a IA traga uma nova dimensão de eficiência, ela não pode substituir os princípios como a escuta ativa, a capacidade de observação da realidade e o potencial criativo que fomenta e favorece a participação. Isso para dizer que não dá pra falar de IA sem escolher um recorte mínimo, sob pena de ser leviana ou romântica quanto à sua funcionalidade. O fato é, se veio pra ficar, como lidar com ela?


Quando os chatbots chegaram ao meu alcance de maneira mais consciente, era o primeiro semestre de 2023 e aquela curiosidade que mencionei acima já se atiçava toda para conhecer. Assim, tratei de baixar uma versão gratuita de um desses aplicativos para ver o que ele fazia de tão diferente. Para seguir com essa conversa, entendi que poderia ser uma boa ferramenta para organizar informações e cruzar dados que só "dar um Google" talvez não resolvesse ou consumisse muito mais tempo. No entanto, na ocasião, a versão gratuita do chatbot utilizado só dava direito a três perguntas. Uma espécie de gênio da lâmpada. E aí, veio a primeira lição: faça as perguntas certas.


E aqui, talvez caiba um parênteses para dizer que, quando eu comecei o trabalho com a cooperação internacional, e mudei minha posição em relação às organizações da sociedade civil locais, essa mesma luz se acendeu. Compreendi que, sendo representante do parceiro apoiador, contribuiria mais fazendo as perguntas certas para as organizações, estimulando formas de refletir e visibilizar mais suas práticas e resultados. E mesmo essa conclusão parecendo ser fácil, é preciso que se diga que depois de 12 anos atuando na execução e gestão de projetos locais, levei pelo menos um ano inteiro para virar essa chave.


Recentemente, numa conversa com um amigo, fui novamente instigada a entrar em contato com essa ferramenta. E nessa retomada, um mix de sensações me permeou, entre elas, ao conhecer melhor o chatbot,  o susto pela potência e a velocidade que nem eu ainda tinha me dado conta! Susto esse que veio agregado da pergunta: usar ou não usar? É ético? Até que ponto? No mesmo período, me deparei com um card/meme nas redes sociais, que dizia "eu quero que a IA lave minha louça pra eu seguir criando." Esse card, que foi a motivação para a reflexão que me trouxe até esse texto, me fez refletir que, em vez de delegar totalmente à IA as tarefas operacionais, o desafio está em utilizá-la como uma ferramenta complementar, capaz de otimizar processos sem comprometer o olhar humano e a escuta sensível.


Fiquei me questionando sobre como lidar, e só tenho mais perguntas: será que, no nosso campo de atuação, oferecer resistência crua e extremada é a solução mais palpável? Prefiro me perguntar: como posso usar ao meu favor, entendendo que os chatbots são ferramentas e não o conteúdo, o suporte e não o foco?


Talvez um caminho seja pensar em como essas ferramentas podem servir de apoio, sem perder de vista a centralidade da intervenção humana nos processos sociais e criativos. Talvez seja, finalmente, isso que o card com a metáfora sobre “lavar a louça” quisesse chamar a atenção: uma utilização racional que que não ameace a produção criativa e resguarde os limites éticos fundamentais e inegociáveis na atuação com dados sigilosos de organizações, políticas, projetos e programas sociais. 


Por fim, algo importante: se conseguirmos, com isso, maior agilidade, fica para nós o desafio de que essa economia de tempo se converta em alguma disponibilidade para o autocuidado, para o descanso, para o lazer e para o outras dimensões da vida tão importantes quanto o trabalho e a militância social e política. Afinal, nenhuma inovação tecnológica pode se impor à relevância do equilíbrio entre produtividade e bem-estar — um valor essencial na transformação social e pessoal. Não dá pra gerar mais sobrecarga, mais exaustão e mais adoecimentos do que aqueles que já temos assistido por aí. Esse é o exercício que nenhuma máquina vai fazer por nós.


 
 
 

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